1 de outubro de 2007

Quando a minha mente "pecca".

A noite chegou densa. O dia fora carregado de cinzento. Ao céu não foi permitido mostrar o seu esplendoroso azul celeste.

Da minha varanda contemplo o nevoeiro que não me deixa ver para lá da rua detrás. Há apenas algumas luzes que lutam por se fazer ver, corajosas e solitárias, tentam contrariar a reduzida visão.

Sente-se no ar o misticismo que esta névoa, por si só, acarreta.

Já algum tempo que me questiono sobre algumas coisas e agora entendo que toda a minha sapiência de nada me serve, quando os factos recorrem directamente a mim. Vejo que, também eu, estou cego pelo nevoeiro que se instalou na minha vida.

Sinto raiva de mim, ou mesmo repúdio.

Observo uma tesoura no cimo da mesa, e tomo a liberdade de incriminá-la na minha doença, usando-me dela para rasga o meu peito e abrir o meu coração, mas para meu espanto tudo o que sinto é apenas o velho bafio do vazio que em mim se instaurou.

Sinto-me a salivar de tanto acre saborear. Há um tom de azedo no ar e minha mente não para de culpar aquela tesoura pelo corte incisivo que fez no meu peito.

“Acorda Nuno!”, oiço eu! Estarei eu a sonhar? Mas logo sinto o quente fluido que se esvai pelo meu peito. Não é sangue, para meu espanto! São apenas lágrimas choradas pelo por uma alma mal lavada.

Não entendo o que os anjos querem de mim, não percebo se me pedem perseverança e insanidade ou pedem apenas para eu não ser mais quem eu nunca fui.

Já não sei mais que pensar… Estou cansado de ser uma marioneta nas mãos da vida, estou farto da sua hipócrita ironia, estou cansado de ver o que não me era permitido ver, estou exausto, estou… cego…

24 de setembro de 2007

Estado de Sítio: O diz que disse!


Neste texto vou pedir a todos um pequeno exercício mental:

Vamos supor um universo de pessoas de domínio: A, B, C, D, E, X e Z.

Agora vamos supor que neste universo as pessoas estão ligadas entre elas de forma directa e indirectamente.

Nestas condições vamos estabelecer uma “condição de fronteira” para começar a desenvolver o problema, vamos imaginar que a pessoa X, tem uma dor de dentes. A pessoa A toma conhecimento do facto através de X, sem grandes pormenores, e em conversa com B, A diz:

- B, Sabias que X tem uma dor de dentes? ACHO que foi por ter comido um caramelo hoje de manhã!

Ao que B comenta:

- Ninguém o mandou comer doces!

Entretanto B encontrou C e disse:

- Já ouviste? X tem uma dor de dentes! FOI porque comeu um caramelo! ACHO que ele não lava os dentes!

Ao que C pergunta:

- Como soubeste isso?

E B diz que ACHA que foi Z que disse a A.

Então uns dias depois C encontra D na rua e diz:

- Tu nem sabes o que aconteceu a X! Está de cama com uma infecção dentária que não lembra a ninguém! FOI porque comeu um pacote de caramelos e nunca lavou os dentes! ACHO que os dentes dele nunca viram um dentista!

- E como é que tu sabes disso? Pergunta D espantado.

- FOI Z que disse isso a toda gente! Não se pode confiar muito nele, ele chiba-se de tudo!

Contudo D, em conversa com E disse:

- Ouve! Nem sabes o que me disseram no outro dia! O X tem a boca toda infectada! Tem os dentes todos infectados!

- Então porquê? Perguntou E.

- FOI porque devorou um quilo de caramelos, nunca lavou os dentes e nunca foi ao dentista.

- Bem! Isso é muito grave! Como se soube?

Ao que o D disse que havia sido Z que tinha dado com a língua nos dentes!

- Bem, acho que vou deixar de falar com X pois é um pouco nojento e com o Z pois não é de confiar! Comenta E.

Entretanto X encontra Z, e X conta-lhe que nos dias anteriores tinha trincado um osso que lhe fizera doer um dente, mas como foi logo no dia seguinte ao dentista tudo ficou resolvido num instante e Z ficou feliz por ele, mas entretanto Z perguntou a X.

- Tens falado com A, B, C, D e E?

- Não?! E tu?

- Também não! Não entendo porque se afastaram de nós!

Este exercício de correlação social será mais fácil de perceberem, se conseguirem reparar a facilidade com que as pessoas passam do verbo ACHAR para o verbo SER. É estranhamente fácil para as pessoas passarem da suposição alheia para a certeza pessoal!
Tenho a certeza que muitos de vocês estarão familiarizados com este exercício, as únicas variáveis que provavelmente se alteram serão a tão falada condição de fronteira e a extensão do universo social, pois já vi que este tipo de problemas é constante quando há um grupo social e “dialogo” é uma palavra inexistente no dicionário de muitos.

Haja paciência… Haja coragem para se falar sem medo de ouvir!

20 de setembro de 2007

Altura dos "Porquês"!

Porque é que o sol, quando nasce, não nasce para todos?
Porque é que a vida não são só 2 dias?
Porque é que o mundo não é assim tão pequeno como dizem?
Porque é que tudo que vai nem sempre volta?
Porque é que não passaram um atestado de incompetência a quem sugeriu o tratado de Bolonha?
Porque é que as macieiras não dão bigornas? É que se dessem, Newton tinha aprendido da pior maneira a lei da gravidade e eu não tinha tanto com que me chatear hoje em dia!

Ufa! Este semestre vai ser muito complicado!

18 de setembro de 2007

A facto ad jus non datur consequentia; A posteriori.


O que é isto em que esbarrei? Onde é que o sentimento se perdeu? É nesse instante que a resposta bate-me a porta e vejo que ele se perdeu quando se começou a estabelecer regras exactas para ele se pudesse manifestar…

O horror está instalado em mim, tal como o pânico.

Ultimamente, tenho desejado ter um desejo, um desejo que me fizesse nunca mais querer outro, um desejo que fizesse com que nada mais interessasse, mas vejo que tudo o que me resta é esperar que o que me rodeia se dissolva numa fracção de segundos, apaziguando assim o meu anseio.

Cheguei ao fim do capítulo final de um qualquer livro. Li todas as páginas que encontrei e continuo sem encontrar uma resposta.

Tudo o que sei, é que tudo o que ousara ter sido, um dia, mais cedo ou mais tarde acabá por reflectir algo em mim. Essa é a única maneira que as coisas têm para ser.

Então aqui fiquei ao sol, respirando com os meus pulmões e com a minha alma, tentando me poupar da altitude da verdade que me diz que tudo o que alguma vez viram em mim, foi apenas um reflexo de um espelho, colocando assim a fasquia mais alta, fazendo o meu pensamento ousar desejar que eu me colocasse numa banheira cheia de água gelada para que esta ideia febril passasse.

Alcanço assim conclusão do dia: existe um momento certo para interromper tudo!

Apercebo-me que, o que realmente preciso é de um tempo para poder descansar este peso que o mundo pôs sobre os meus ombros, um tempo onde nada me seja questionado, onde eu consiga dar vazão a este pranto que na minha carne se encrostou, um tempo onde eu possa por fim baixar esta máscara de “forte e corajoso”, um tempo onde possa ser cobarde e invejoso…

Quero um momento onde todas estas dores atrozes que me rodeiam me invadam o corpo, um momento onde todo este ódio gerado se consuma em mim até ao meu último folgo e mesmo depois disso espero que todos respeitem e compreendam a minha decisão, mesmo que eu não a aceite, mesmo que eu não saiba lidar com ela…

11 de setembro de 2007

O último segredo dos oceanos.


Porque choraste tu?

Ainda vejo no teu rosto os cristais de sal que as tuas lágrimas deixaram.

Foi porque hoje os céus bocejaram violentamente ou porque ouviste as ondas baterem as asas que tu delicadamente teceste?

Será por não haver medicação ou consolação para as tuas feridas em mim cravadas?

Porque será que mordes suavemente os teus lábios, porque franzes tu as sobrancelhas nesse ar casto?

Por favor não chores, por favor não chores mais… Choras como se eu quisesse, fosse ou devesse te pedir desculpas por algo que não cometi.

Agora olhas-me como se um segredo me quisesses contar, mas não temas as marés ou os navios fantasma que por lá navegam, pois eu estarei sempre aqui para mergulhar no teu tesouro perdido para em mim guarda-lo. Amarei, para sempre, o teu peculiar prazer.

Contemplar-te-ei no infinito, pois tu és o último segredo e o mais pecaminoso dos desejos dos oceanos.

8 de setembro de 2007

Viagens


São instantes de inconsciência. Pequenos momentos onde a loucura faz parecer que a insanidade não passa de mera vaidade. Não me perguntem se íamos a 100, ou mesmo a 200, pois para mim íamos a 1000km/h. Com a cabeça fora da janela e com os braços esticados na esperança de apanhar o vento, gritei… gritei alto e em bom som, gritei gritos que, em prol da felicidade, se transformavam em rugidos. Desta forma abri a boca e deixei que o ar me sufocasse, me privasse de respirar. A velocidade era tanta que o meu pranto se dispersava nos milhares de luzes que provinham dos placares de publicidades e dos néons que anunciavam mais um bar.

Feliz é aquele que sente o vento bater-lhe no rosto!

Prosseguimos viagem, e eu, de olhos bem fechados tentava imaginar os locais por onde passávamos, tornando assim a viagem única, diferente, autêntica. Passei por lugares onde mais ninguém havia, ou haverá, passado, por ruas coloridas, por avenidas intermináveis, por vielas inimagináveis. Fiz a minha própria viagem, ao sabor do vento, ao sabor da noite, ao sabor da amizade

“Vamo-nos perder?”- perguntaram.

E eu não hesitei e disse…

“Ainda aqui estamos?”

6 de setembro de 2007

Em ponto de orvalho!


É impressionante como conseguimos nos inundar por preocupações fúteis. Hoje passei o dia assim, pensando em coisas sem grande interesse, relegando para segundo plano aquilo que talvez me fizesse crescer um pouco mais, ou que pelo menos me desse um pouco mais de qualidade de vida.

Tinha a cabeça a mil, quando vi que eram horas de ir preparar o jantar. A ausência de discernimento limitou a minha imaginação culinária a uma sopa!

Com a panela ao lume, vi que o sol já se punha e percebi que era altura ideal para ir regar o meu jardim.

O calor ainda se fazia sentir e foi com agrado que abri a torneira e preparei a ponta da mangueira para a configuração de pulverizador. Foi como uma sensação para a vida.

Descalço, com os pés nus sobre a relva molhada, senti o meu espírito recuperar o alento. Lavei a alma com as microscópicas gotas de água e senti a temperatura descer ao ponto da perfeição. O odor do alecrim, do rosmaninho e da alfazema molhado, flutuava no ar juntamente com o perfume das 101 flores que no meu jardim habitam. Um momento de magia pura, de uma leveza impar, de uma simplicidade inigualável que me enchia de felicidade, deixando-me por fim sem qualquer problema na cabeça até que…

“Fogo! Deixei a panela ao lume!”

3 de setembro de 2007

Longa se torna a espera!

O sol já deu lugar ao escuro da noite, contudo ainda se sente a sua presença na agradável temperatura. O tempo convida-me a puxar o meu puff para a varanda onde uma brisa suave se faz notar. Pela porta do meu quarto sai a fragrância do incenso que lentamente se consome. O chá devora-me o pensamento enquanto sacia a minha alma de algo mais. Respiro fundo na esperança de conseguir mais uma vez descrever esta imagem que eu não me canso de contemplar. São sete colinas enfeitadas com milhares de luzes que a esta distância mais parecem pedras preciosas encrostadas num manto negro. No céu apenas consigo vislumbrar uma única estrela e a lua hoje parece mais tímida que o normal.

A escuridão a minha volta obriga-me a voar daqui para fora. Voo para longe, voo para lá que fica já além mesmo, entre o “sol” e o “si”.

Perco-me pelas ruas e estreitos da vida e percebo que procuro algo. Algo que desconheço, mas que sei que não vou encontrar.

Lanço-me em desafios inalcançáveis com a esperança que eu, um dia, me supere e para espanto próprio me sinta um pouco mais capaz de algo.

Não consigo descrever o que sinto. É um misto de saudade, tristeza e felicidade. Estou sem capacidade de conseguir evidenciar os meus sentimentos e desta forma fecho um pouco os olhos há espera que a brisa passe mais uma vez e me dê um beijo.

Apenas a minha música quebra o silêncio instituído meu bairro, hoje parece que até os cães, que constantemente estão a ladrar, pararam para desfrutar desta noite. A suavidade das músicas flúi por mim deixando um restinho de magoa para com a vida. É estranho como me posso sentir feliz por ter a vida que tenho, mas ao mesmo tempo me sentir tão triste por tão poucas vezes me sentir acarinhado e amado. Sinto-me tão só como aquela estrela que se ergue no denso negrume do céu.

Respiro fundo e termino o chá; fecho os olhos e para lá eu volto antes que a tristeza se apodere de vez de mim. Está na altura de mudar de música, mas vou ficar por aqui a curtir a bonita noite que está!

Serei assim tão estranho?

Já não posso mais com isto!

Que se passa com a mocidade dos nossos dias? De tanto me dizerem coisas do género “Tu não és normal!?” ou do género “Onde estacionaste a nave?” ou “ De que sistema planetário vieste tu?” ou então “Quando é que bateste com a cabeça a ultima vez?”, começo a desconfiar que não sou mesmo nada normal e os meus encontros matinais com o espelho começam a deixar-me assustado.

Aqueles que não me conhecem bem estarão a pensar porque raio as pessoas continuam a dizer, insistentemente, tais afirmações. Devo frisar que a grande parte das afirmações são me dirigidas por elementos do sexo feminino que ficam espantadas por eu (um homem) saber cozinhar qualquer tipo de pratos (incluindo aqueles que eu não gosto), por todos os dias fazer a cama, por muitas vezes passar a minha roupa a ferro, por limpar a casa de banho, por lavar sempre a cozinha, por não gostar de ver a minha casa desarrumada ou suja.

Estas frases também são proferidas por eu acordar cedo, sempre que posso (incluindo nas ferias). Tenho que admitir que me faz um pouco de impressão quem passa as manhãs todas na cama até ao meio-dia ou mais. Uma vez por outra também eu o faço, mas prefiro acordar cedo e ir dar uma volta por um jardim qualquer ou ir até a praia.

A normalidade dos jovens de agora é deixar a roupa suja acumular no monte e quando não houver mais, ou se gasta uma pipa de massa na lavandaria, ou então começa-se a reciclar roupa. É também normalidade para um jovem a pirâmide de loiça no lava-loiça que alguns, orgulhosamente, exibem a quem a casa deles vai. Há também quem ache normal que não se faça a cama, pois a noite vai ter que a desfazer de novo; mediante tal afirmação fico-me a questionar se eles pensam o mesmo da mudança de lençóis. Depois há aqueles que passam a vida nos fast-food’s pois cozinhar da muito trabalho. Não poderia deixar também de referir aqueles que ostentam com brio a colecção de bolas de cotão que com muito esforço conseguiram acumular por detrás da porta do quarto, ou o mofo de pelos que está espalhado por toda a casa de banho.

Também sei que há aqueles que fazem todas as tarefas domésticas como eu, mas não acham normal o facto de o fazer sem frete. Eu faço tudo isso sem frete (vá passar a ferro aborrece-me um pouco) pois quem corre por gosto não cansa, e se se fizer um pouco todos os dias custa bem menos.

Eu não sei bem quem tem a noção de normalidade trocada, mas para tirar a prova dos 9, tive 2 dias (o máximo que consegui) a tentar ser um jovem “normal” e foi muito mau… experiência a não repetir. De facto, para mim, a normalidade está do meu lado e não vou abdicar do meu estilo de vida!

Em relação aos outros aspectos mais pessoais, pelos quais também me acham muito diferente do normal, vou-me abster pois nenhum advogado é bom em causa própria. Se gostam assim, ainda bem, se não gostam só tem que por na borda do prato.

Com isto é hora de ir fazer o jantar, pois já oiço vozes a protestar.

30 de agosto de 2007

Há um vento frio no ar!

"Era um café e um copo de água, por favor.” – Simpaticamente, alguém pede ao barman.

Foi desta forma que acordei da minha viagem. Decidi então ordenar um capuchino e uma torrada para forrar o meu estômago.

Aqui me encontro eu, numa mesa de um bar, a espera de alguma coisa! Estou sentado, lado a lado, com o meu irmão. Está lendo em silêncio um qualquer livro. Fez-me lembrar que há algum tempo que nada leio…

A falta de cumplicidade entre mim e ele deixa-me com uma vontade de escrever, mas hoje, as minhas frustrações parecem estar bastante encrostadas em mim, ao ponto de não as conseguir soltar neste pedaço de papel virtual.

O sol, batendo na minha cara, provoca uma sensação estranha pelo meu corpo quando misturado com o fresco ar que sai do ar condicionado. É um misto de quente-frio que me deixa suado e arrepiado.

Vou degustando um caramelo na esperança que ele me traga algo de doce à vida para alem do sabor que se vai entranhando na minha boca, mas nada parece mudar.

Observo as flores que uma rapariga trás com ela e no meio daquele bonito embrulho, consigo vislumbrar rosas. Sem que pudesse contrariar o meu pensamento, tal imagem faz-me recuar alguns dias e lembrar-me de uma rosa em particular que originou em mim um misto de sensações.

De facto, as rosas são flores cínicas, são flores de aparência frágil, bela e romântica, de odores enfeitiçantes, mas todos sabemos que se não lhes soubermos pegar, poderemos magoar os dedos. São os espinhos, de tão belo aroma, que não nos permitem desfrutar todo o seu esplendor! Se lhe cortarmos os espinhos, a rosa deixa de ser rosa, e passa a ser uma flor mutada a vontade do ser humano. Deixa de ser original, casta, pura para ser mais uma coisa manipulada ao nosso bem-querer.

É na pureza das coisas que está o seu valor, e no caso da rosa, é o desafio de podermos aprecia-la nas nossas mãos, completa e sem nos magoarmos que dá ainda mais beleza à flor.

Por vezes sinto-me como a rosa, no meu estado puro, poderei ser difícil de tolerar, de apreciar e por essa razão as pessoas tentam sempre criar em mim aquilo que não existe. É com normalidade que, depois as pessoas me achem estranho, diferente, fora do normal. As pessoas ficam com receio de me “pegar” pois eu permaneço irredutível em deixar que me cortem os “espinhos”. Esse obstáculo faz com que as pessoas apenas me queiram apreciar dentro de uma jarra qualquer.

Nunca pensei vir um dia a concordar que a vida é mesmo como um mar de rosas… se não soubermos nadar nela, vamos nos magoar muito…

29 de agosto de 2007

Problemas de expressão!

Passa pouco das 4 da manhã. Encontro-me há quase 36 horas acordado e por incrível que pareça o sono teima em não chegar. A insónia parece ter-me adoptado como companheiro, para que eu possa tentar perceber em que mundo me encontro. Sim eu não consigo entender que raio de planeta é este! Por vezes quero crer que vim doutro sistema planetário.

Começo por me sentir um pouco esquisito quando me deparo com um dos maiores de todos os males; a incompreensível de falta de comunicação entre as pessoas! Sim, para mim, este é a origem de todos os outros males.

Hoje, percebo que as pessoas, há muito tempo que perderam o respeito umas pelas outras. Por todo lado vejo amigos, namorados, vizinhos, conhecidos ou colegas de trabalho discutindo por tudo e por nada, discussões sem razão alguma, brigas sem justificação.

Por vezes as discussões são inevitáveis, mas quando isso acontece, em vez de se sentarem e conversarem civilizadamente, não! Põem-se logo a apedrejar o outro, com o arsenal de pedras que acumularam no desenrolar de situações!

Quem me conhece sabe que eu não deixo passar nada em branco, se não gostei de alguma coisa, digo-o na hora, sem rodeios ou papas na língua. Não gosto de engolir sapos para depois poder mandar a cara. Daí, se calhar, alguns dos meus amigos me dizerem, que por vezes, tenho atitudes mais ríspidas, que por vezes, pareço pouco tolerante, mas não simplesmente estou a deixar tudo em pratos limpos. Pode ser uma filosofia que transpareça alguma agressividade, algum moralismo, pois eu não deixo passar uma, mas eu posso dizer que não tenho desavenças com nenhum dos meus muitos amigos! O que eu acho ou penso fica bem claro!

Sinto-me triste por ver alguns bons amigos que hoje mal se conseguem falar sem se atacarem, sinto-me triste por ver alguns casais de namorados que não conseguem passar mais de 5 minutos sem gritaram um com o outro, sinto-me triste por as pessoas não se conseguirem tolerar, não conseguirem dialogar (diálogo deve ser uma coisa que muitos devem desconhecer de todo), não conseguem falar sem gritar!

Depois há quem me acuse de intolerância e rude! A mim, que não preciso de levantar a voz para me fazer ouvir, enquanto que outras pessoas, as conversas começam a -50Db e terminam a 10Db. Parece uma competição estúpida para ver quem fica por cima, e no final nada resolvem! Ficam logo prontos para outra discussão!

Quem me conhece sabe bem que a minha base para qualquer relação é o diálogo, logo seguido pelo respeito e tolerância, e por ser assim, começo a sentir-me único!

Com isto não quero dizer que não tenho discussões, não tenha as minhas arrelias, mas acho que tenho a capacidade de perceber que depois da tempestade, é preciso esclarecer e resolver as coisas, sem agressividade verbal. Também não quero dizer que eu é que estou certo, mas acho que quando gostamos de alguém queremos é estar bem com ela e não com a sensação que temos o papo cheio de sapos e que está prestes a rebentar…

28 de agosto de 2007

Eu... já...

Já caí muitas vezes, mas já me levantei muitas mais!
Já chorei imenso.
Já me arrependi muito na vida.
Já baixei algumas vezes os braços, mas já bati muito com o pé.
Já bati muitas vezes com a cabeça.
Já aprendi muito com a vida, mas sinto que ainda tenho muito a aprender.
Já fui condenado por ser honesto e dizer sempre o que penso.
Já fui criticado injustamente.
Já fui criticado justamente.
Já critiquei com justiça, mas também já o fiz sem justiça.
Já me desiludi muito na vida.
Já dei a volta por cima.
Já fui muito teimoso.

Já tive medo de arriscar.
Já agi de cabeça quente.

Já me senti morto por dentro.
Já me senti oprimido.
Já fui sufocado.
Já fui enganado e também já enganei.
Já sorri quando a minha vontade era chorar.
Já chorei quando tudo o que queria era sorrir.
Já amei.
Já fui amado.
Já desisti do que amava.
Já senti, por entre o vidro a boca que dizia amar-me.
Já me senti completo… e por isso…
Já sou muito feliz!
Já tentei perdoar o que não tinha perdão.
Já tentei esquecer o inesquecível.
Já tentei substituir o insubstituível.
Já aprendi que, por vezes, apoiamos os nossos maiores sonhos em grandes pessoas, mas o tempo é cruel, por vezes mostra-nos que grandes eram só os sonhos e que as pessoas eram pequenas demais para os tornar realidade.

27 de agosto de 2007

24 de agosto de 2007

Porque há dias assim…


O barulho de fundo fez despertar o meu consciente. Algo ecoava pelas divisões da minha casa e o meu quarto não era excepção. Não cheguei a perceber que som era aquele, mas assim abri um pouco os olhos, constatei que a manha já havia passado. Entendi que o meu corpo já algum tempo que pedia descanso. O meu irmão ainda dormia profundamente, por isso deixei a aparelhagem desligada e dirigi-me ao banho.

Deambulei um pouco pela casa de boxers até perceber que a namorada do meu irmão se encontrava presente. Seria a primeira vez, neste dia que me sentia a mais na minha própria casa. Já vestido, dirigi-me à cozinha e lá tirei a minha primeira auto-análise do dia; fazia dias que andava com uma falta incessante de apetite. Optei então por aconchegar o estômago com apenas um copo de leite.

Após ter arrumado o meu quarto, tentei arranjar um plano para desfrutar um pouco do que restava do meu dia… mas nada me surgiu. Foi então que, pela segunda vez no dia me senti a mais no meu próprio domicilio. O olhar do meu irmão implorava por um pouco de privacidade e assim chegava a conclusão que tinha que sair.

Em parte a ideia agradava-me, pois as paredes do meu quarto há muito que deixaram de me inspirar e eu precisava muito de escrever. Arrumei tudo e arranquei em direcção de alguma coisa.

O calor apertava, sentia-se o suor das pessoas em todo lado, e eu parecia não ser excepção.

Chegava ao bar tropeçando em todos os olhares que se focavam em mim e assim me senti pequeno e estranho. Procurei por um lugar onde me sentisse inspirado e aqui me sentei.

Contudo a inspiração tardou a chegar.

Acordei do meu transe quando percebi que o copo estava vazio, o cigarro morto e a pastilha já não tinha sabor. Entendi então que o que é doce não amarga, mas perde o sabor e fiquei a pensar se não seria por isso que as pessoas estão sempre a dizer que eu sou um doce de pessoa. Fiquei assustado com tamanha dedução.

O violino e o piano inundam o meu cérebro de melodias que me fazeram regressar ao passado. Apesar do calor hoje sentido, as minhas memorias foram-se encontrar em noites de Inverno, onde a lenha estalava na fogueira, onde o som do romance se espalhava no ar e sentado num puff, lado a lado com outra pessoa, bebíamos um bom vinho que gentilmente animava a noite. Horas ouvindo a chuva cair, vendo o fogo consumir lentamente os troncos de madeira como se estivesse a degustar um doce raro. Era como apreciar um belo espectáculo de magia, um espectáculo que nos fazia brilhar os olhos após cada número.

Mas as memorias ao passado pertencem e hoje nada daquilo teria o mesmo sentido; hoje minhas retinas fixam-se noutros olhos, que tristemente parecem distantes de algo.

Teus olhos negam a existência de entes superiores! Tu és a prova que os Deuses não existem! Não lhes seria perdoado tal pecado.

Embalado pelo malte e pela cevada, sonho o meu sonho mais profundo, o sonho de mergulhar no infinito particular dos teus olhos e deixar-me inspirar pelo pecado que eles acarretam, o pecado de me deixar flutuar pelos aromas e fragrâncias da tua existência, de me envolver no teu paladar e deixar-me derreter sobre o calor da tua voz.

Se gostar de ti é pecado, eu quero arder no inferno, se gostar de ti é errado, já mais quero estar certo.

O problema é que eu, para ti, também sou como um doce! Começo a ficar cansado desta amarga vida de ser uma pessoa diferente, contudo refuto a hipótese de vir a mudar, pois apesar de tudo, gosto de mim, gosto de como sou, orgulho-me muito do que me tornei e estou a tornar. Se a vida não me der a hipótese de pecar, vou seguir em frente lutando para que o meu fado seja diferente um dia.

Já me sinto um pouco zonzo e paro para tentar perceber o que me deixara assim. Será o malte ou a cevada? O calor ou a música que me embala nesta odisseia?

Olhei para o relógio, mas não quis interpretar as horas. Senti que o tempo me desafiava para uma guerra à qual eu não quero entrar, pois tenho plena consciência que é uma guerra perdida a partida. Gosto de lutar mas só quando sei que tenho uma hipótese, não vou gastar mais energias em desafios que não me constroem.

Foco-me em qualquer coisa. Nas pessoas que estão na piscina, nas que estão no bar, nas que estão longe. Tento encontrar uma qualquer inspiração para fazer algo de novo, um desafio que muitos, gentilmente, me têm colocado; escrever um livro, mas com muito arrependimento e frustração vejo que não sou privilegiado com esse dom, e espero não desapontar ninguém. Contudo agradeço todo o vosso apoio, carinho e incentivo, mas ainda não me sinto preparado para tal.

Observo a minha carteira, e vejo que me é permitido ordenar mais uma cerveja. A ausência de comida no meu estômago parece deixar-me mais tonto, contudo o transe parece ser bastante agradável. Encosto-me para trás e choro lágrimas de alegria. Choro choros que ninguém pode ouvir ou ver. Choro por perceber que sou aquele que, por mais vezes que a vida castigue, todos os dias acordo com um sorriso no rosto e com vontade de lutar por algo mais.

"Felicidade: ventura; bem-estar; contentamento; bom resultado ou bom êxito; dita; qualidade ou estado de quem é feliz.”

Será que também nesta definição não se podia incluir, “estado ou qualidade daquele que acredita nele próprio”? Pois eu sou feliz, uns dias mais que outros, mas sou, porque hoje sinto que me demarquei pela unicidade, porque lutei por ser diferente e sempre acreditei que os grandes objectivos formam os grandes carácteres.

Sou feliz sim, e vou continuar a lutar por isso!

22 de agosto de 2007

Fim de jogo!

Por mais valente que seja, há situações que não passo de um fraquinho!
Posso ser pobre, mas consigo ser feliz e bondoso!
Posso ser pequenino, mas sou saudável!
Sonho muito alto, mas ainda não passei do chão!
Até sou ajuizado, mas por vezes passo-me!
Por mais perdido que pareça estar, tenho sempre esperança!
E se estou errando; desculpa!
Estou cansado, mas não paro de trabalhar!
Sou cauteloso, mas ando sempre relaxado!
E quando achas que eu ainda estou aqui; já parti!
Sou jovem, mas possuo bastante sabedoria!
Sou muito amigo, mas por vezes sou rígido!
Posso estar doente, mas continuo bonito!
Estou desmotivado, mas sem muito bem o meu valor!
E se agora estou triste, não deixo de sorrir!

É por tudo isto que gostas de mim, mas adivinha lá? O teu tempo já passou!
Já não quero ser a ligadura, pois a ferida é só tua.
Não quero bajulado por aquilo que represento em ti! Não quero ser a tua ama-seca nem a tua mãe, pois já és bem grandinha e não te carreguei 9 meses!
Não quero ser responsável pelo fraquejar do teu coração!
Não quero ser o preenchimento do teu vazio, não quero mais ser o substituto para o fumo que tu inalas!
Já não quero ser a tua outra metade, até porque eu acredito que 1+1=2!
Não quero ser o teu herói, pois eu até vertigens tenho!
Eu não vou voltar a ser a cola que mantêm os teus pedacinhos unidos!

Não quero que me agradeças por nada!
Esquece-me! Agora é tarde para me dares valor!

21 de agosto de 2007

I Daydream


O sabor amargo do café fez-me lembrar que nem tudo na vida é doce, mantendo-me assim longe de ilusões. A chávena, o cinzeiro e o jornal davam o toque final ao cenário pitoresco de um café conhecido no meio de uma avenida lisboeta bastante movimentada.

Sentado absorvia o tempo folhando o jornal na diagonal enquanto reparava no contraste de uma rapariga vestida de rosa com outras duas totalmente vestidas de preto. A dormência começou a apoderar-se de mim, e assim acabei por tomar a decisão de me movimentar.

As ruas estavam cobertas de turistas, os edifícios mostravam-se atraentes para essas pessoas, mas eu que ali passara tantas vezes, nunca me apercebera de tamanha beleza.

A música acompanhava-me e eu, caminhando de cabeça erguida, ia observando a harmonia da mistura da brisa com o verde das folhagens e o azul celeste do céu, harmonia essa que dava um tom bizarro a tela, quando misturada com a azafama que se encontrava na rua.

Á medida que caminhava foi ficando mais clara a antítese daquele meio. A opulência de certos veículos, o vislumbre das lojas e a ostentação de algumas pessoas fazia sobressair ainda mais a miséria daqueles que nas portas estavam sentados com uma mão esticada.

Senti-me apoquentado e assim que vi aquele senhor de barba grande, com uma idade aparente, certamente muito superior a real, não resisti e abri a minha carteira. O pouco dinheiro que tinha dividi-o em duas partes iguais e deixei uma delas, na mão áspera daquele senhor que gentilmente me desejou sorte.

Mais a frente uma senhora esticava a mão, também. O seu rosto não conseguia disfarçar os muitos Invernos que vira passar. Parei, e desta vez não pensei e a parcela que me sobrara rapidamente não era mais minha.

“Deus o ajude!” disse ela, e eu pensei… talvez ele até exista.

Não tenho a bondade de São Martinho ou a moral de Sto António quando deu o sermão aos peixes, mas senti-me mais leve e muito mais humano. Ficara sem dinheiro, mas o alívio era muito grande, senti-me uma pessoa melhor.

Já sentado no banco do jardim, descansei a cabeça. Os raios de sol penetravam por entre as folhagens aqueciam-me o rosto e o coração. Ali fiquei a fumar a alma e a consumir o meu espírito, ali estava eu a sonhar acordado um sonho onde era difícil de perceber onde terminava o real e começava o surreal, mas naquele banco fiquei a sonhar mais um pouco a espera que o tempo passasse ou que alguém chegasse e me sussurrasse ao ouvido “Já cheguei”.

Assim o tempo passou e eu apenas sonhando...

20 de agosto de 2007

Kiss of life.


É complicado, por vezes, entender os desígnios da vida.

Hoje acordei, zuado pelo barulho do vento, empedrecido pelo escuro que se propagava pelo meu quarto.

“Que horas serão?”

A questão não acarretava preocupação e assim rolei mais um pouco pelos lençóis virgens que me acariciavam o corpo. Senti o meu paladar dormente e a vontade cansada e assim fechei novamente os olhos.

Voltei a acordar, mas desta vez sobressaltado. Algo me apertara o peito, e a falta de ar fizera com que eu despertasse para este mundo. Não mais fechei os olhos que se fixaram nas paredes do meu quarto. Os cortinados serrados não me permitiam ver o bonito dia que se erguera.

“Que horas serão?”

Desta vez a curiosidade venceu a minha apatia matinal. O dia já ia alto e no rasgo de energia levantei-me da cama e abri o cortinado. A luz do sol inundou o meu quarto e o meu ser levando-me a abrir a porta da minha varanda e a respirar bem fundo para aproveitar todos odores que se espalhavam pelo ar, nesta bela e amena manhã de verão.

Em minha casa havia sido imposto o silêncio por força de não haver mais ninguém nela, para alem de mim e da minha solidão presencial.

Avancei até ao chuveiro e ali me deixei estar por largos minutos a descansar a alma e o corpo que ainda estava dormente. Deixei que a água me batesse no rosto para lavar qualquer vestígio da noite anterior e foi como receber um beijo da vida.

O quarto estava desarrumado, desorganizado, descaracterizado de tudo aquilo que eu sou. Havia algo a mais naquele pequeno espaço físico, algo que perturbava o ambiente que eu tanto cultivo. Era o silêncio… e antes mesmo que ele pudesse reclamar um qualquer cantinho, liguei a aparelhagem bem alto e mesmo antes de eu virar as costas, ele já havia partido. Agora havia algo que estava em falta… Era a fragrância do incenso ardendo com tudo o que me pudesse trazer melancolia.

O aroma das flores do meu quintal misturadas com o odor do incenso trazia uma paz infindável ao meu cantinho dando a harmonia ideal para desfrutar o som que se propagava. O sabor do café despertava o sentido do paladar e sem que eu percebesse estava sentado em cima do meu fiel companheiro, o meu puff, observando o desenrolar do tempo sobre o rio Tejo.

“Que horas serão?”

Era tempo de ficar mais um pouco ali perdido no tempo, no espaço e em tudo o que me rodeava.

Eu estava longe… e lá fiquei a apaixonar-me por tudo aquilo que eu imaginava ver. Apercebia-me que já há muito tempo que não sonhava acordado e perante tal constatação sorri, sorri muito, sorri para mim, para a vida, para tudo o que me rodeava.

Então encostei-me para trás e perguntei-me:

“Que horas serão?”

Who cares…

18 de agosto de 2007

Um pouco de surrealismo.


São momentos intensos de algo que me transcende. São breves instantes que parecem durar uma vida. São momentos onde a antítese do prazer da proximidade se envolve com a dor atroz da curta distancia que nos separa. São instantes onde tudo parece nada quando estás ao meu lado.

Silêncios quebrados pelos sons mudos que proferimos. Enaltece-se a minha cegueira conduzida pelo ofuscar da tua luz. Quebram-se regras e tabus, estratégias ou dogmas. Nada resiste ao trovejar que corre nas minhas artérias.

É como observar-te no negrume, é como proferir o teu nome de boca fechada, é como ouvir a tua voz no fundo do oceano.

Rasga-se o vento, as luzes e o som. Cessam-se batalhas, travam-se guerras, curam-se as feridas e derrubam-se barreiras.

Perco-me, com uma facilidade quase que absurda, nos teus olhos. Sinto um fraquejar quando inalo as flores que em ti habitam. São rosas ou amores-perfeitos? São lírios ou pétalas de lótus? Só sei que são odores que me fazer voar por entre as brisas que correm pelo o meu corpo rasgando-me o peito, violentando-me contra o chão.

Exausto, luto contra o ribombar do meu coração com medo que tu o oiças a brandir. Sinto-me pequeno ao lado de tanta destreza presencial.


16 de agosto de 2007

"Mudas-tea!!!"


Sentado sobre a brisa que corre na minha varanda, observo o manto negro que se expande pelo céu. Milhares de luzes inundam os meus olhos, umas provenientes desse negrume, outras da cidade que a minha frente se veste de publicidades coloridas. Um silêncio sepulcral instala-se, permitindo-me ouvir o estalar do cigarro a arder por entre cada travo. O chá está agradavelmente quente e vai-me embalando os sonhos.

Decidi colocar os headphones e curiosamente tocava um som extremamente relaxante. Não pensei duas vezes, e quando dei por mim já tinha colocado a música, Moments in love dos Art of Noise, na re-re-repetição.

Eu estava ali, mas não estava. O êxtase provocado pelo chá, som e fumo colocara-me longe de tudo. Senti-me numa outra dimensão, onde o tempo não fazia sentido, onde a viagem parecia não ter regresso, passado ou presente, onde todo que eu via era a estrada que se estendia a minha frente e que apenas me queria guiar ao meu futuro.

Extasiado, voei, nadei, corri mares e oceanos, continentes e céus e com a simplicidade com que começara esta viagem… terminava.

Já livre de todos os sonhos e pesadelos, dei mais um trago no chá e mirei o infinito.

Agora observo, com clareza como tudo parece estar a mudar. Sinto-me infinitamente mais forte, mais experiente, mais confiante, sinto que consegui aprender com os meus erros. Passei um ano de desmotivação e sem autoconfiança sem razão aparente. Abracei a tristeza por me ter entregue a pessoas sem qualquer interesse, contudo tristezas não pagam dívidas e mesmo que pagassem, eu ainda não as tenho por isso tenho tocado a minha vida para a frente. Estes últimos dois meses tem me feito um bem enorme. A faculdade correu acima das expectativas e tenho me relacionado com muita gente nova que me tem dado um animo e uma motivação muito grande.

Sinto-me, novamente, capaz de tudo aquilo que eu acredito e luto. É bom ver que aquele Nuno que eu próprio não conhecia está mais que enterrado.

É bom ser creditado por aqueles que um dia acharam que eu não estava à altura, é bom ser reconhecido por quem me conhece, por quem julgava que me conhecia e por quem pouco me conhece. Tenho sido acariciado com muitos elogios, mas isso não me vai fazer parar para me babar frente ao espelho, vai (e está) dar-me mais forças para melhorar sempre mais, pois quem me conhece bem sabe que: “Inconformado, sempre… Resignado, nunca!”.

Hoje respiro tranquilidade e paz de espírito.

Paro com a reflexão, bebo o último gole de chá, fixo mais uma vez as retinas sobre o manto de luzes que cobre Lisboa. Apaixono-me mais um pouco por este momento e desfruto do som que se entranha pelos meus ouvidos. Inspiro fundo e deixo o fresco ar entrar pelos pulmões fazendo a minha temperatura baixar um pouco. Tudo parece puro, casto, inocente, relaxante. Emancipa-se o meu fascínio pela vida e fico cognescente que tudo o que eu almejo são as coisas simples que a vida nos pode proporcionar. Eu acredito que é na simplicidade que estão as coisas boas da vida.

14 de agosto de 2007

Andarilhos Gigantes

Todos os dias me apercebo melhor o quanto são complicadas as entranhas da amizade e do amor. São sentimentos que por vezes têm o poder de abalar os alicerces de qualquer estrutura, por mais sólida que seja. São como andarilhos gigantes que tão facilmente nos enaltecem, como nos proporcionam grandes quedas. A tradicional faca de dois gumes.

Hoje, longe de tudo, numa terra tão familiarmente desconhecida, luto por me abstrair daquilo que me corrói, mas ainda não inventaram o botão “on/off” para o nosso pensamento e por isso mesmo a minha mala veio tão pesada quanto o ambiente que deixei no meu quarto.

Sinto-me demasiado inocente para este mundo de sentimentos selvagens que atropelam tudo e todos, sem nunca olharem para trás e nesse aspecto eu fui cilindrado! Estou cansado desta vida que levo, preciso de estabilidade emocional, estou exausto de ser um objecto de diversão, de ser olhado como um corpo. Começo a ficar saturado de sexo por sexo, preciso de alguém que me queira guardar o meu sono, eu só quero alguém que me queira acariciar e ser acariciada, uma pessoa que me queira amar por aquilo que sou e não por aquilo que ostento.

De facto mais vale sofrer-se junto do que ser feliz sozinho, isto porque ninguém é feliz sozinho.

Estou a lutar contra a minha própria sombra… (1 Agosto de 2007)